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GOSPEL

Plantas e saberes da Amazônia passam a ser ameaçados a partir de pressão global sobre a ayahuasca

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  • A expansão global da ayahuasca, impulsionada por usos religiosos, terapêuticos e pelo turismo, tem aumentado a pressão sobre as espécies utilizadas em seu preparo, como o cipó Banisteriopsis caapi e a folha Psychotria viridis, com relatos de escassez em algumas regiões da Amazônia.
  • A cadeia de circulação da bebida conecta a floresta a mercados internacionais por meio de fluxos pouco transparentes e, em muitos casos, situados na fronteira da ilegalidade, em um cenário de lacunas regulatórias e ausência de fiscalização efetiva.
  • Pesquisadores alertam para a falta de dados básicos sobre a distribuição, abundância e exploração das espécies, o que dificulta a definição de estratégias de manejo e aumenta o risco de degradação ambiental.
  • Lideranças indígenas denunciam a apropriação de saberes tradicionais e articulam respostas globais, como o Fórum Mundial da Ayahuasca e a proposta de uma aliança internacional para ampliar sua participação nas decisões sobre o uso da bebida.

“Uma das maiores farmácias do mundo está sendo destruída”, afirma o líder indígena Benki Piyãko, do povo Ashaninka, no Acre. O alerta aponta para as múltiplas pressões que avançam sobre a Amazônia, mas também para um momento de crescente debate e de ameaças em torno de uma das chamadas “medicinas da floresta”: a ayahuasca.

A bebida indígena, de propriedades psicodélicas, é preparada, em geral, a partir de duas plantas nativas da região: o cipó caapi ou mariri (Banisteriopsis caapi) e as folhas da chacrona (Psychotria viridis), espécies que, segundo relatos de lideranças indígenas e especialistas, enfrentam pressão crescente e sinais de escassez em algumas regiões.

Denominada kamarãpe pelo povo Ashaninka, a ayahuasca, usada há séculos por indígenas da Amazônia, há décadas atravessa fronteiras e deixou de circular exclusivamente em seus contextos originários. Hoje, está presente em centros religiosos urbanos, retiros terapêuticos e circuitos internacionais de turismo psicodélico.

Cientistas e laboratórios farmacêuticos também voltam sua atenção à bebida ancestral, que já apresenta evidências de potencial terapêutico para diferentes transtornos de saúde mental, como depressão e dependência química. Mas, junto com o crescimento do interesse global, vêm também as preocupações.

À medida que a demanda cresce, a cadeia de circulação da ayahuasca se expande sem um acompanhamento equivalente em termos de manejo e monitoramento. Em diferentes regiões da Amazônia, já há sinais de pressão sobre as espécies utilizadas no preparo da bebida, em geral coletadas sem planejamento. Ao mesmo tempo, o aumento do consumo fora dos contextos tradicionais levanta preocupações sobre a transformação de saberes ancestrais em produtos adaptados à lógica do mercado.

O principal problema parece estar na forma como essa expansão se sustenta, a partir de uma cadeia pouco transparente que conecta a floresta a mercados distantes. Cipó e folhas são coletados em áreas muitas vezes sem manejo estruturado, passam por intermediários e alimentam um fluxo global que, em muitos casos, opera na fronteira da ilegalidade.

Embora o Brasil reconheça o uso religioso da ayahuasca, por meio de resolução do Conad (Conselho Nacional de Políticas sobre Drogas), a bebida contém DMT (dimetiltriptamina), uma substância psicodélica controlada tanto pela legislação brasileira quanto por tratados internacionais.

Benki Piyãko, líder do povo Ashaninka. Foto cedida por Benki Piyãko.

O ponto central da controvérsia é que, embora o DMT esteja listado como substância proibida, as plantas que o contêm e as preparações tradicionais feitas a partir delas, como a ayahuasca, não são explicitamente proibidas, o que cria uma zona cinzenta jurídica. Na prática, a interpretação varia de país para país, e, em muitos casos, autoridades acabam equiparando a bebida a drogas ilícitas, empurrando sua circulação para circuitos clandestinos.

Em um cenário de ausência de políticas de cultivo e proteção, cresce o temor de que o hype da ayahuasca passe a pressionar a floresta mais rapidamente do que sua capacidade de regeneração. “O risco é a ayahuasca virar mercado”, resume Benki.

“O que vemos hoje é gente querendo transformar esse conhecimento em produto”, prossegue o líder ashaninka, que volta a lembrar que a ayahuasca está inserida em um contexto mais amplo, também ameaçado. “Se você diz que tem espiritualidade, precisa cuidar da terra.”

Para ele, a ayahuasca não pode ser dissociada do conjunto de plantas e relações que sustentam a vida na floresta. “Não é só a ayahuasca que está em risco. É todo um sistema de plantas que está sendo pressionado”. A fala de Benki revela um pouco do princípio que orienta seu trabalho.

O líder indígena vive na região do Alto Juruá, na fronteira entre Brasil e Peru. Em 2004, deixou seu território para assumir a Secretaria de Meio Ambiente do município de Marechal Thaumaturgo. Três anos depois, formou um grupo de cerca de 80 jovens para trabalhar com técnicas agroflorestais.

A iniciativa evoluiu ao longo dos anos e, em 2018, deu origem ao Instituto Yorenka Tasorentsi, hoje voltado à recuperação de áreas degradadas, à construção de sistemas agroflorestais e ao fortalecimento da governança indígena. Desde então, o projeto articula jovens, comunidades e territórios em torno de práticas de reflorestamento e soberania alimentar, tendo já plantado milhões de árvores na região.

Nos últimos anos, seu trabalho passou a dialogar com uma agenda mais ampla: a articulação de lideranças indígenas de diferentes países para discutir o futuro da ayahuasca em um cenário de crescente circulação global. Após cinco edições das conferências indígenas sobre a bebida, realizadas no Acre, esse debate ganha escala internacional com o Fórum Mundial da Ayahuasca, que acontece de 9 a 13 de setembro, em Girona, na Espanha.

Cipó caapi, ou mariri, (Banisteriopsis caapi), uma das plantas usadas no preparo da ayahuasca. Foto: Eurivaldo Bezerra/LIS.

Regulação sob pressão

“Repudiamos todas as formas de comercialização da ayahuasca que formaram um mercado global fora dos limites éticos”, afirma a carta final da quinta edição da Conferência Indígena da Ayahuasca, realizada em janeiro de 2025 no Acre, que reuniu representantes de 34 povos indígenas de diferentes países.

O documento sintetiza um conjunto de preocupações que também vem ganhando espaço no debate institucional no Brasil. No mesmo ano, o estado do Acre aprovou a primeira legislação específica do país voltada à regulamentação da extração, transporte e uso das plantas utilizadas no preparo da ayahuasca. Uma iniciativa inédita que, no entanto, vem sendo alvo de críticas.

“Há uma apropriação da medicina da floresta, sem reconhecimento da sua origem e dos povos que detêm esse conhecimento”, afirmou o cacique Ninawa Huni Kuin durante uma audiência pública do Ministério Público Federal do Acre, realizada no final de 2025, pouco depois da divulgação das novas regras do Estado.

A audiência reuniu lideranças indígenas, pesquisadores e representantes do estado do Acre e acendeu um alerta sobre o crescimento descontrolado da ayahuasca no Brasil, em um cenário marcado pela ausência de fiscalização efetiva, lacunas regulatórias e avanço da comercialização fora dos contextos tradicionais e religiosos.

No Acre, considerado a capital brasileira da ayahuasca, a proposta de regulação aprovada em 2025 estabelece parâmetros diferenciados para grupos religiosos e organizações formalizadas. Na prática, permite a coleta periódica de cipó e folhas mediante comunicação ao órgão ambiental estadual.

Grupos informais podem retirar até 150 quilos de cipó e 60 quilos de folhas a cada 120 dias, sem necessidade de personalidade jurídica. Já entidades formalmente constituídas têm acesso a cotas maiores, de até 1.000 quilos de cipó e 300 quilos de folhas por semestre, desde que comprovem uso ritual e não comercial da bebida.

A iniciativa busca dar alguma previsibilidade a uma atividade que historicamente operou em zonas pouco regulamentadas. Ao mesmo tempo, reflete uma tentativa de conciliar interesses distintos, que vão da proteção ambiental à garantia do uso religioso.

Mas a ausência de informações básicas sobre a disponibilidade das espécies e o volume real de extração impõe limites à eficácia do modelo. “Não foram realizados levantamentos sobre o estoque e a exploração natural dessas espécies”, afirmou o deputado estadual Edvaldo Magalhães, autor da lei, ao comentar os dados que embasaram a proposta.

Segundo ele, a iniciativa teve como foco principal atender às demandas de entidades religiosas já estabelecidas, muitas das quais mantêm áreas próprias de cultivo. Ao mesmo tempo, reconhece que não há hoje informações consolidadas sobre a circulação da bebida ou sobre a pressão efetiva sobre as plantas.

As limitações da lei não passaram despercebidas nem pelo próprio órgão ambiental do estado. Em um relatório técnico publicado em janeiro de 2026, o Imac (Instituto de Meio Ambiente do Acre) apontou inconsistências relevantes na norma e possíveis conflitos com a legislação federal.

Entre os principais pontos, o documento destaca que a lei não estabelece critérios básicos para a coleta sustentável das espécies, como períodos adequados de extração, maturação das plantas ou técnicas que garantam sua regeneração. Também chama atenção para o fato de que a simples comunicação ao órgão ambiental, prevista na nova regra, não substitui a exigência de licenciamento ambiental prévio, como determina a legislação nacional.

Outro ponto crítico é a possibilidade de regularização posterior de cargas durante ações de fiscalização, o que, segundo a análise técnica, pode abrir brechas para a circulação de material de origem incerta. Nesse cenário, o próprio órgão reconhece a necessidade de revisão da lei para adequação aos parâmetros ambientais e jurídicos vigentes.

A pressão por mudanças também vem dos territórios. O Instituto Yorenka Tasorentsi, liderado por Benki Piyãko, solicitou formalmente a revisão e até a nulidade da legislação, argumentando que sua elaboração não respeitou o direito à consulta prévia dos povos indígenas, conforme previsto em acordos internacionais dos quais o Brasil é signatário. Entre recomendações técnicas e contestações políticas, a lei que pretendia organizar o uso da ayahuasca no Acre passa agora a ser questionada em sua própria base.

Preparo da ayahuasca na comunidade de Céu do Mapiá, no estado do Amazonas. Foto: Eraldo Peres/AP Photo.

Sem dados, sem controle

A fragilidade da base técnica e científica sobre a qual se constrói esse debate é um dos pontos mais sensíveis. Hoje, não há informações seguras sobre a distribuição, a abundância ou o volume de exploração das principais espécies utilizadas no preparo da ayahuasca na Amazônia.

Segundo o pesquisador Eufran Ferreira do Amaral, da Embrapa Acre, essa lacuna começa já no nível mais básico: o mapeamento das plantas. “Seguimos sem dados consolidados, uma vez que o foco dos inventários tem sido das espécies madeireiras e, eventualmente, de espécies não madeireiras com valor econômico”, afirma.

A ausência de informações se estende também à própria ocorrência das espécies. O cipó Banisteriopsis caapi e a folha Psychotria viridis se desenvolvem em ambientes distintos dentro da floresta amazônica, o que dificulta estimativas mais amplas sobre sua distribuição. Sem esse tipo de dado, torna-se difícil estabelecer parâmetros seguros para extração ou mesmo avaliar o impacto da crescente demanda.

Do ponto de vista ecológico, os sinais de pressão já começam a aparecer. “Com o aumento do desmatamento e da extração sem conhecimento da densidade das espécies, as buscas estão cada vez mais distantes e a disponibilidade vem reduzindo em áreas onde antes a presença das espécies era maior”, diz.

A falta de monitoramento territorial também impede qualquer estimativa confiável sobre o volume de produção ou circulação da bebida psicodélica no país. Ao mesmo tempo, o crescimento de fábricas de ayahuasca com estruturas que operam em maior escala acende um alerta adicional. “É um risco ambiental, ecológico e cultural, uma vez que contribuem para a retirada de grandes quantidades sem manejo, sem avaliação de impactos e sem reposição”, afirma o pesquisador.

Apesar do cenário de incerteza, experiências pontuais apontam possíveis caminhos. Algumas organizações religiosas têm investido em plantios próprios, buscando reduzir a pressão sobre populações nativas. Para Amaral, esse modelo poderia ser ampliado. “Estaríamos trabalhando com plantios associados à restauração florestal, em sistemas agroflorestais medicinais e protegendo a floresta remanescente”, diz.

Ainda assim, qualquer estratégia de longo prazo dependeria de uma base técnica e científica hoje inexistente. Entre as medidas necessárias, ele aponta a realização de inventários florestais, o acompanhamento do crescimento das espécies em ambiente natural e o monitoramento de áreas de cultivo. Sem isso, o risco é que a expansão da ayahuasca continue avançando mais rápido do que a capacidade de compreensão sobre seus impactos.

Folhas de chacrona (Psychotria viridis), uma das plantas usadas no preparo da ayahuasca. Foto: Eurivaldo Bezerra/LIS.

Na fronteira da ilegalidade

A expansão da ayahuasca para além da Amazônia não se dá apenas sob tensão ambiental, mas também sob um cenário jurídico fragmentado e, muitas vezes, contraditório. Em diferentes países, a bebida circula em uma zona cinzenta, marcada por interpretações divergentes sobre sua legalidade.

Segundo o advogado Jesús Alonso Olamendi, do ADF (Ayahuasca Defense Fund), programa ligado ao Iceers (sigla em inglês para Centro Internacional de Educação, Pesquisa e Serviço Etnobotânico), sediado na Espanha, a situação na Europa é hoje “incerta”. Em alguns países, como a Espanha, decisões judiciais recentes passaram a distinguir a DMT sintética, controlada internacionalmente, da DMT presente naturalmente em plantas e preparações tradicionais como a ayahuasca. Ainda assim, essa diferenciação não é consenso.

Na prática, explica, predomina uma tendência de equiparar a bebida a substâncias ilícitas, ignorando seu contexto cultural e ritual. “Essa equiparação é um erro do ponto de vista legal e farmacológico”, afirma. “Mas, para muitas autoridades, é a saída mais simples.”

Esse cenário tem se traduzido em um aumento de apreensões e detenções, especialmente à medida que práticas com ayahuasca se expandem para regiões onde há pouco conhecimento sobre seu uso tradicional. “Temos visto cada vez mais integrantes de comunidades indígenas viajarem para países onde essas plantas são tratadas simplesmente como drogas”, diz.

Os impactos recaem diretamente sobre essas lideranças. Segundo o advogado, muitos acabam detidos ao tentar ingressar em território europeu ou durante a realização de cerimônias, enfrentando processos que podem durar meses. “Em muitos casos, ficam submetidos a prisão preventiva ou domiciliar por um ano ou mais”, afirma.

Dados reunidos pela ADF indicam a dimensão do fenômeno. Nos últimos dez anos, a organização acompanhou cerca de 500 casos de apreensão e detenção em 47 países envolvendo plantas de uso tradicional das Américas, incluindo a ayahuasca. O número não representa o total de ocorrências, mas aponta para uma tendência clara: a bebida já circula globalmente, muitas vezes em contextos de risco jurídico.

Ao mesmo tempo, o avanço de políticas mais restritivas reforça um paradoxo. Enquanto cresce o interesse científico e terapêutico por substâncias psicodélicas, esse movimento tende a privilegiar compostos isolados em detrimento das plantas e dos sistemas de conhecimento que lhes dão origem. “Há uma pequena tolerância para a pesquisa, mas quase sempre restrita a substâncias sintéticas”, afirma.

Membros da doutrina do Santo Daime em serviço religioso no Céu do Mapiá, no estado do Amazonas. Foto: Eraldo Peres/AP Photo.

Resposta indígena ganha escala global

Diante de um cenário marcado por expansão global, criminalização e disputas jurídicas, lideranças indígenas vêm buscando construir uma resposta própria, capaz de reposicionar o debate em torno da ayahuasca a partir de seus territórios e sistemas de conhecimento.

Um dos principais desdobramentos desse processo é o Fórum Mundial da Ayahuasca, previsto para setembro, em Girona, na Espanha. O encontro nasce da articulação entre o Instituto Yorenka Tasorentsi, liderado por Benki Piyãko, e o Iceers.

Mais do que um simples evento, o Fórum se apresenta como uma plataforma de governança indígena, e pela primeira vez com protagonismo dos povos originários de todo o planeta. O encontro pretende discutir os impactos da expansão da ayahuasca e de outras plantas psicodélicas no mundo, da regulação ao extrativismo cultural, passando pela biomedicalização e pela mercantilização de saberes tradicionais.

“O fórum tem como objetivo abrir um diálogo com o mundo científico, acadêmico e também econômico, para que essas medicinas possam ser compreendidas sem que se perca a forma como nós, povos indígenas, preservamos e usamos”, afirma o líder indígena Nixiwaka Yawanawá, um dos fundadores da Conferência Indígena da Ayahuasca e que também participa da construção do evento em Girona.

Segundo ele, a proposta não é apenas crítica, mas também propositiva. “Não queremos só apontar problemas. Queremos construir uma grande aliança”, diz. Entre os objetivos está a criação de um conselho internacional de lideranças espirituais indígenas, capaz de atuar de forma coordenada na defesa das medicinas tradicionais e dos conhecimentos associados.

Essa articulação ganhou visibilidade recentemente ao ser apresentada, em janeiro deste ano, no Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça, onde o cacique Nixiwaka lançou as bases de uma aliança global voltada à proteção dos sistemas de conhecimento ligados às plantas medicinais e às contribuições que esses saberes podem oferecer para enfrentar os grandes desafios da humanidade.

A proposta de criação de um conselho global, por vezes descrita por seus articuladores como uma espécie de “ONU indígena”, surge como resposta à expansão internacional das plantas psicodélicas, em um cenário no qual medicinas como a ayahuasca circulam globalmente, mas raramente sob controle ou protagonismo dos povos que desenvolveram esse conhecimento. Trata-se de uma instância de governança espiritual articulada por guardiões dos conhecimentos ancestrais.

Barco no Rio Nanay, em. Iquitos, Peru. Foto: Inon Sani.

Para o líder ashaninka Benki, que também participa dessa articulação, o desafio é evitar que a ayahuasca siga o mesmo caminho de outras plantas que perderam seu contexto original ao serem incorporadas ao mercado global. Em diferentes momentos da entrevista, ele chamou atenção para os riscos desse processo, alertando para a transformação de saberes tradicionais em produtos desvinculados da floresta.

“Lideranças como Nixiwaka Yawanawá e Benki Piyãko vêm mostrando ao mundo a importância desses conhecimentos para enfrentar os grandes desafios do nosso tempo”, afirma o antropólogo peruano Claude Guislain, membro do comitê organizador do Fórum Mundial da Ayahuasca.

Para Guislain, essa atuação ganha ainda mais relevância em um contexto de pressão crescente sobre os territórios e os modos de vida tradicionais. “Em um momento em que as pressões do nosso mundo continuam a ameaçar o deles, apontam um caminho em que a forma mais profunda de resistência é oferecer o melhor de seus saberes para contribuir com o futuro comum da humanidade”, afirma.

A criação de espaços próprios de articulação, como o Fórum Mundial da Ayahuasca e a Aliança Global, aponta para uma tentativa de reequilibrar esse cenário, reposicionando os povos indígenas no centro das decisões não apenas sobre o futuro da ayahuasca, mas sobre o papel mais amplo desses conhecimentos em um mundo cada vez mais interessado em seus efeitos, porém ainda pouco comprometido com suas origens.

A partir da expansão da circulação da bebida amazônica pelo mundo, cresce também a percepção de que esses povos detêm saberes que vão além do uso ritual, abrangendo visões sobre saúde, meio ambiente e a relação entre sociedade e natureza, com potencial de contribuir para desafios que ultrapassam o campo das medicinas tradicionais.

Caminhos sustentáveis

Em meio a esse cenário de pressão crescente e ausência de dados, algumas iniciativas no Brasil buscam estruturar formas de manejo mais alinhadas com os ciclos da floresta. No LIS (Lar e Integração do Ser), dedicado ao vegetalismo (conjunto de saberes ancestrais do Alto Amazonas peruano), o cultivo das plantas utilizadas nos rituais segue princípios que combinam conhecimentos tradicionais e acompanhamento contínuo.

No espaço, localizado em Areal, na Região Serrana do Rio de Janeiro, o trabalho é baseado na relação com as chamadas plantas maestras, como o cipó caapi e a chacrona, utilizadas no preparo da ayahuasca. “A primeira coisa que fizemos nesse território foi começar a plantar”, afirma a psicóloga Karla Perdigão, cofundadora do centro, pioneiro no Brasil. A iniciativa, sem fins lucrativos, foi desenvolvida em parceria com a Novo Humano, organização que apoia projetos voltados a transformações individuais e coletivas, com foco em impacto socioambiental.

Segundo Karla, todas as plantas maestras (espécies consideradas, nas tradições amazônicas, como fontes de aprendizado espiritual e conhecimento) utilizadas no trabalho são cultivadas no próprio espaço, com acompanhamento desde o plantio até a colheita, incluindo cuidados de ordem espiritual.

Para a psicóloga, o aumento da demanda por ayahuasca tem causado efeitos preocupantes. “Esse crescimento do consumo está gerando um impacto significativo na sustentabilidade, no plantio e no respeito ao tempo da planta”, diz. Parte do problema, prossegue ela, está na desconexão entre o uso e os contextos que historicamente orientam esse conhecimento. “Isso coloca em risco essas plantas”, afirma. “A gente vem percebendo um tipo de ‘extrativismo espiritual’.”

Turista italiana bebe ayahuasca em cerimônia na Amazônia peruana. Foto: Martin Mejia/AP Photo.

‘Maior tesouro da Amazônia é sua diversidade biológica e cultural’

Na Amazônia peruana, onde a ayahuasca atravessa gerações e territórios, os efeitos dessa expansão são percebidos no cotidiano. Em Iquitos, um dos principais polos de circulação da bebida na região, o engenheiro florestal José Torres Vázquez acompanha há décadas as transformações em torno das plantas e dos conhecimentos associados a elas. Para ele, o crescimento da demanda, impulsionado pelo turismo e pelo interesse internacional, já produz impactos concretos.

“Com o boom da ayahuasca, naturalmente há depredação”, afirma. Sem políticas estruturadas de manejo ou incentivo ao cultivo, o avanço do consumo tende a deslocar a coleta para áreas cada vez mais distantes. “Se não há plantios nem esforço, seja privado ou público, para manter as condições das plantas, naturalmente elas tendem a desaparecer”, diz.

Ao mesmo tempo, a expansão da ayahuasca também altera dinâmicas sociais e econômicas na região. Em um cenário marcado pela informalidade, parte significativa dos centros que oferecem experiências com a bebida opera sem regulação clara, e a distribuição de renda gerada por esse mercado é desigual. “Muitos indígenas recebem poucos soles [moeda peruana], enquanto os turistas pagam muitos dólares”, afirma.

Para Torres, esse processo ocorre em paralelo a um movimento mais amplo de enfraquecimento das práticas tradicionais entre as novas gerações. “Os jovens [indígenas] estão se afastando da ayahuasca, influenciados pelo mundo ocidental”, diz. Sem transmissão contínua, o risco não é apenas ambiental, mas também cultural.

A escassez de informações agrava o cenário. Não há estimativas consistentes sobre o volume de extração das plantas nem sobre a extensão de sua ocorrência na floresta. “Muito pouca informação. Esse é um dos grandes problemas que temos”, resume.

No Peru, assim como no Brasil, entre pressões ambientais, lacunas regulatórias e disputas em torno do uso e do controle da ayahuasca, o desafio é evitar que a expansão global da bebida se desconecte das condições que a tornam possível. Na base desse sistema está um conhecimento construído ao longo de gerações, profundamente ligado à floresta e aos modos de vida dos povos que a habitam.

Algumas dessas pressões, aliás, não são novas. “Todo conhecimento tradicional sempre esteve ameaçado, em todas as partes do mundo. E, no caso da ayahuasca, uma das primeiras ameaças foram os grupos religiosos”, afirma. Segundo ele, ainda hoje há comunidades onde o uso da bebida é desencorajado ou proibido, muitas vezes com base em desinformação.

Torres relata um episódio que, para ele, revela a profundidade desse processo. Ao final de uma conferência sobre botânica e plantas sagradas em uma universidade intercultural na região de Ucayali, na Amazônia peruana, ele convidou os estudantes, em sua maioria indígenas, para uma cerimônia com ayahuasca. “Havia mais de 200 jovens. Convidei todos. E sabe quantos apareceram? Nenhum”, conta. No dia seguinte, ao perguntar o motivo, ouviu a explicação: a forte presença de grupos religiosos na região havia levado ao abandono da prática entre os mais jovens.

“O maior tesouro que temos na Amazônia é sua diversidade biológica e sua diversidade cultural”, diz Torres. “Dentro disso, a cosmovisão dos povos originários e sua relação com a ayahuasca e as plantas maestras.”

Para Torres, o que está em jogo vai além da preservação de uma espécie ou de uma prática. “O ser humano não percebe que é parte da natureza”, diz. Em um mundo que avança sobre a floresta enquanto busca nela respostas para suas próprias crises, a ayahuasca expõe um paradoxo: ao mesmo tempo em que se globaliza, corre o risco de perder as condições que sustentam sua existência: a floresta, os territórios e os conhecimentos que lhe dão sentido.

Imagem do banner: Xamã do povo Shipibo-Konibo em cerimônia de ayahuasca no Vale de Ucayali, no Peru. Foto: Martin Mejia/AP Photo.

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