ARTIGO
Dr Augusto Rocha dá um conselho sobre as eleições no Acre: “É hora de somar e não de dividir”

Articulação política no Acre: é hora de somar, não de dividir
Por Augusto Rocha
Na política, ninguém constrói um projeto forte sozinho. O Acre precisa de lideranças capazes de dialogar, agregar forças e compreender que política não se faz com exclusão, mas com inteligência, estratégia e capacidade de construir pontes.
A política acreana vive um momento em que algumas práticas precisam ser revistas. Não é possível pensar em grandes projetos políticos mantendo velhos métodos baseados na divisão, na exclusão e na concentração de decisões nas mãos de poucos.
Articular não é mandar. Articular é construir. Uma liderança verdadeiramente preparada precisa compreender que pessoas diferentes podem caminhar na mesma direção. O objetivo de uma articulação política não deve ser controlar todos, mas encontrar aquilo que une diferentes grupos em torno de um propósito comum.
O primeiro pilar é somar, não dividir
Toda vez que uma liderança transforma aliados em adversários, perde força. Toda vez que cria disputas desnecessárias dentro do próprio grupo, enfraquece o projeto que pretende defender. A política exige firmeza de princípios, mas também exige inteligência para administrar diferenças.
O segundo pilar é agregar, não excluir
É um erro estratégico fechar portas para pessoas que podem contribuir. Política é relacionamento, é diálogo e, sobretudo, é capacidade de construir confiança. Quem deseja liderar precisa entender que não pode trabalhar apenas com aqueles que concordam com tudo.
Quem só conversa com quem pensa igual não está fazendo articulação; está fazendo reunião de iguais.
O terceiro pilar é conversar com todos
No Acre, como em qualquer lugar, existem diferentes grupos, lideranças, igrejas, movimentos sociais, empresários, profissionais liberais, servidores públicos, comunidades e cidadãos independentes. Uma articulação inteligente precisa ouvir todos.
Dialogar não significa concordar com todos. Significa respeitar, ouvir e compreender que, em uma democracia, o convencimento é mais eficiente do que a imposição.
Quando a liderança religiosa entra na política
Essa reflexão também precisa alcançar setores da liderança evangélica que têm participado ativamente das discussões políticas.
É legítimo que líderes religiosos tenham posicionamentos políticos e participem do debate público. O problema começa quando a liderança passa a utilizar sua influência para criar círculos fechados, promover reuniões de portas fechadas e ouvir somente aqueles que concordam com sua visão.
Uma liderança que reúne apenas o seu grupo de confiança pode até criar uma sensação de controle, mas corre o risco de perder contato com a realidade.
Mais preocupante ainda é quando líderes e liderados competentes, experientes e comprometidos são colocados de lado simplesmente porque passaram a pensar diferente ou porque não fazem parte do círculo mais próximo.
Discordar não deveria ser motivo para ser expurgado. Uma liderança madura não teme pessoas que pensam diferente. Pelo contrário: sabe que a diversidade de opiniões pode aperfeiçoar decisões, revelar problemas que não estavam sendo percebidos e produzir estratégias mais inteligentes.
Expurgar bons líderes por causa de divergências pode significar perder justamente aqueles que poderiam contribuir para fortalecer o projeto.
A pergunta que precisa ser feita é: estamos formando uma equipe de pessoas competentes ou apenas um grupo de pessoas que concordam conosco?
Existe uma diferença enorme entre as duas coisas: Um grupo formado apenas por concordância pode oferecer conforto. Uma equipe formada por competência oferece resultados.
O quarto pilar: colocar cada pessoa no lugar certo
Não basta reunir pessoas; é preciso saber utilizar seus talentos. Existem pessoas excelentes na mobilização, outras na comunicação, outras na organização, outras na estratégia e outras na construção de relacionamentos.
Uma equipe política eficiente não pode ser formada apenas por critérios de amizade, proximidade ou submissão. Competência precisa ter espaço. Isso vale para a política partidária, para a administração pública e também para as estruturas de liderança religiosa que participam do debate político.
Quando pessoas preparadas são afastadas porque não fazem parte do círculo de confiança, perde-se conhecimento, experiência e capacidade de articulação.
Portas fechadas não constroem grandes projetos
Reuniões reservadas podem ter sua importância estratégica. O problema é quando elas se tornam o principal método de tomada de decisão e passam a substituir o diálogo amplo.
Nenhum projeto político de grande dimensão pode depender exclusivamente de um pequeno grupo.
Política se faz com gente. E gente precisa ser ouvida.
Quem pretende construir uma maioria precisa conversar com diferentes setores. Precisa ouvir críticas. Precisa aceitar sugestões. Precisa reconhecer que ninguém possui sozinho todas as respostas.
A concentração excessiva de decisões pode até facilitar o controle no curto prazo, mas pode enfraquecer o projeto no longo prazo.
Liderança não é controle
Liderar não significa fazer com que todos pensem da mesma maneira. Liderar é conseguir fazer pessoas diferentes trabalharem por objetivos comuns.
Uma liderança forte não precisa eliminar seus críticos; precisa saber ouvi-los.
Não precisa afastar quem discorda; precisa compreender por que existe a discordância.
Não precisa criar um grupo de protegidos; precisa construir uma equipe capaz de entregar resultados.
Quem precisa excluir todos os que discordam para manter sua liderança talvez esteja confundindo autoridade com controle. Quando isso acontece, a estrutura pode parecer forte por fora, mas estar fragilizada por dentro.
O Acre precisa de uma nova cultura de articulação
O Acre precisa de uma política com menos disputa interna e mais construção. Menos vaidade e mais estratégia. Menos preocupação com quem está aparecendo e mais preocupação com aquilo que está sendo entregue à população.
Afinal, o eleitor não quer saber quem venceu a disputa dentro de determinado grupo político. Ele quer saber quem será capaz de melhorar a saúde, a educação, a segurança, a infraestrutura, a geração de emprego e a qualidade de vida.
Por isso, a pergunta que as lideranças precisam fazer não é apenas: “Quem está comigo?”
A pergunta mais importante é: “Quem pode contribuir para construirmos juntos um projeto melhor para o Acre?”
Essa mudança de mentalidade pode fazer toda a diferença. Porque política é feita de escolhas, mas também de pontes.
Quem divide pode até conquistar espaço. Quem agrega constrói força. Quem sabe dialogar constrói alianças. E quem consegue unir pessoas em torno de um propósito pode transformar articulação em resultado.
O Acre não precisa de muros mais altos. Precisa de pontes mais fortes.
E talvez seja justamente esse o momento de lembrar que uma liderança verdadeiramente estratégica não pergunta apenas quem lhe é fiel. Ela pergunta quem é capaz de contribuir. Porque somar é uma estratégia; agregar é inteligência; dialogar é uma necessidade; e unir pessoas diferentes em torno de um propósito é uma verdadeira demonstração de liderança.
Dr. Augusto Rocha
Esp. em Gestão Pública, Gestão Hospitalar, Sociologia na educação e Teologia Cristã e Estudo Bíblico Avançado












