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RAIMUNDO FERREIRA

Professor Raimundo Ferreira diz em sua coluna que ideias de Machado de Assis continuam atualizadissimas

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IDEIAS MACHADIANAS CONTINUAM ATUAIS

Quem já travou algum contato com a vasta obra de Machado de Assis, especialmente com seus inúmeros contos, deve ter percebido que, apesar de tanto tempo decorrido, e devido ao viés filosófico que o autor imprimia às suas histórias, ainda hoje podemos lê-las e identificar situações que podem perfeitamente ser utilizadas para refletirmos sobre questões da atualidade.
Esse aspecto sobreviveu ao tempo porque o autor não descrevia suas narrativas fazendo juízo de valor, tampouco tirando conclusões. Limitava-se a narrar os fatos e deixava em aberto para que os leitores estabelecessem relações com a realidade e tirassem suas próprias conclusões.

Um desses exemplos pode ser constatado em “O segredo do bonzo”, que inicia relatando a visita de dois amigos, o vendilhão Fernão Mendes e o médico Diogo Meireles, ao Reino de Bungo, mais precisamente à cidade de Funcheu. Logo ao desembarcarem, encontraram uma multidão em torno de um homem chamado Patimau, que discursava a plenos pulmões, anunciando que, após muito estudo, muita pesquisa e grande esforço, para a glória do Reino de Bungo, havia descoberto a origem dos grilos: eles seriam o resultado da mistura do ar com as folhas dos coqueiros durante a lua cheia. O povo aplaudia, dava vivas e saía carregando-o nos braços.

Pouco mais à frente, depararam-se com outra cena semelhante. Um nativo chamado Languru bradava diante de uma multidão que, depois de muito estudo, pesquisa e dedicação, para a glória da humanidade, havia descoberto o segredo da longevidade: o sangue de vaca. Da mesma forma, o povo aplaudia freneticamente, dava vivas e o carregava em triunfo.

Os visitantes ficaram abismados, sem entender o que estava acontecendo. Como Fernão Mendes conhecia um sapateiro da cidade, foi até sua residência e perguntou sobre aquelas situações. O sapateiro explicou que os homens provavelmente eram discípulos de um sábio chamado Pomada, que vivia em Funcheu. Resolveram, então, visitá-lo.

Ao recebê-los, o sábio confirmou que aqueles homens eram realmente seus discípulos e explicou que, depois de muitos anos de estudo, descobrira que existiam duas maneiras de demonstrar conhecimento e conquistar prestígio. A primeira era cansativa, exigia muito trabalho e demorava para que as pessoas compreendessem. A segunda era bem mais fácil e produzia praticamente o mesmo efeito: bastava fazer com que as pessoas acreditassem que você sabia das coisas.

Para comprovar sua teoria, propôs uma demonstração. Como Fernão Mendes tocava um pouco de flauta, o sábio anunciou que haveria um concerto com o maior músico do mundo. No momento da apresentação, damas de honra trouxeram a flauta em uma bandeja de ouro e, quando o suposto virtuose empunhou o instrumento, a multidão já estava em delírio, antes mesmo de ouvir qualquer nota.

Naquela época, havia uma doença em Funcheu que afetava o nariz das pessoas, sendo que algumas já haviam, inclusive, amputado o órgão. O sábio anunciou, então, que um renomado médico havia chegado à cidade e seria capaz de curar aquele mal. Nessa oportunidade, o doutor Diogo Meireles discursou afirmando que a solução consistia em substituir os narizes físicos pelos narizes metafísicos. Ninguém entendeu muito bem o que aquilo significava, mas todos acreditaram que o médico resolveria o problema.

Machado de Assis demonstra, com fina ironia, que a impressão que uma pessoa consegue transmitir sobre seus conhecimentos, ainda que eles não sejam reais, pode ludibriar muita gente, ao menos por determinado tempo, fazendo com que as pessoas acreditem que determinados profissionais ou autoridades detêm um saber que, na realidade, talvez não possuam.

Diante disso, cabe a pergunta: existem, ou não, muitos discípulos do sábio Pomada nos dias atuais?

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